quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Crônica ou Quando Eu Vim Morar Na Capital do Brasil

Quando vim morar em Brasília, capital do Brasil, no ano de 1993, apesar da pouca distância da minha cidade natal, Goiânia/GO, eu senti um baque cultural muito grande. Não sei dizer mas as pessoas do centro de Brasília eram muito diferentes e não tinham aquela humildade aparente da qual fui acostumado quando cresci e me entendi por gente em Goiânia. Lembro-me que nos ônibus que riscavam a cidade de norte a sul, da W3 à L2, havia adesivos do tamanho de uma cartolina (daquelas compradas em papelaria) com poesias. E tinha uma poesia que resumia bem isso que tento colocar aqui neste texto. Dizia assim o poema que li: “Brasília: clima seco, falta humildade no ar”. Infelizmente não me lembro do autor. Sim, Brasília não era apenas uma localização geográfica seca apenas na atmosfera da cidade mas, seca por causa das poucas e parcas relações sociais. Naquele iniciozinho da década de 1990, nessa mesma atmosfera brasiliense, havia no imaginário popular em expansão dessa cidade acreditar e divulgar que “todo goiano é burro”. E essa crença era originária por causa do trânsito. Ora, sabemos que a elite brasiliense era formada, majoritariamente, por cariocas que vieram quase à força povoar essa remota cidade do meio da Região Centro-Oeste. Trocaram a areia das belas praias por terra vermelha que nos tempos secos é poeira vermelha e nos tempos chuvosos, barro. Imagina o grau de satisfação desses cariocas retirantes forçados? Pois então, os goianos motoristas que frequentavam o trânsito de Brasília eram aqueles do chamado entorno, que naqueles anos era um lugar sem lei. Entorno é um cinturão de cidades do Estado de Goiás que ficam próximas à divisa com o Distrito Federal. Dessa forma, esses motoristas que não raro dirigiam seus carros e pilotavam suas motocicletas sem ter Carteira de Habilitação, promoviam coisas assombrosas no – até então – organizado trânsito brasiliense. Naqueles anos dava pra ver na placa dos carros o nome do município de onde eles eram originários. E dava pra saber também que eram veículos goianos por causa das letras que pertenciam a essas placas. Assim, o revide após uma “barbeiragem automobilística” era por a cabeça para fora da janela do carro e gritar: “Ô goiano burro! Aprende a dirigir!”. E ainda tinha o caso de que nessa região do entorno era fácil comprar uma Carteira de Habilitação para Dirigir. Fácil era, só não era barato. Assim, todas as vezes que você informava que era goiano, ou conversava com as pessoas expondo o sotaque característico por causa do “R”, quando havia motivo, os “cariocas brasilienses” soltavam essa exclamação: “Goiano burro!” Essa discriminação por origem afetava a busca por emprego. Havia empresas e outras organizações que não contratavam goianos. A desculpa era que a passagem de ônibus para o entorno era cara. Mas a verdade era bem outra, o que havia era uma certa reserva de mercado para os brasilienses. Mas o forte mesmo em questão de empregabilidade eram os concursos públicos. Lembro-me que ouvi muito a ofensa pelo fato de eu ser goiano. Foi assim que aprendi a identificar minha origem dizendo que sou goianiense – que é aquele nascido na cidade de Goiânia – uma vez que tecnicamente todo brasileiro nasce em um município, em uma cidade antes de nascer em um Estado. Fato é que o “goiano burro” estudou, fez cursos preparatórios, e foi aprovado em concurso público de nível médio. Depois estudou, fez curso preparatório para vestibular e foi aprovado no temido processo seletivo da Universidade de Brasília (UnB) o único no mundo em que uma questão errada anula uma questão certa. Assim, este “goiano burro” ao encontrar outros “goianos burros” nos órgãos públicos de Brasília, na condição de servidores efetivos e também encontrar nos vastos corredores dos prédios da UnB mais “goianos burros”, chegou à conclusão que os chamados “goianos burros” vinham para Brasília para ocupar as vagas que os “brasilienses inteligentes” não conseguiam por que – a maioria – não conseguia ser aprovada nos concursos e vestibulares da capital. Hoje, ano de 2025, quero acreditar que isso tenha mudado com essa nova geração. Que não exista mais a denominação preconceituosa de ser destituído de inteligência só porque é originário de um certo lugar. Quero acreditar. FIM

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